terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

E porque escrever? (poema incidental)

Letra após letra, linha torta, grossa ou fininha. Palavra por palavra artigo, substantivo, adjetivo e algum advérbio. Parágrafo semi-texto, semi-idéia, Dulcinéia do cavaleiro teclante, ante a tela branca desafiadora. Texto, resto empresto uma emoção a minha tela. Ela que nunca responde o que lhe pergunto, junto ao pé do mouse, luz azul mutante. Antes criasse notícias, mentisse sobre os outros, noutros multi-meios cheios de assonâncias e aliterações.
Escrever e não ler pra nada acontecer, em prosa e verso, inverso de tudo que há neste universo. Assim converso com Machado e Pessoa e numa boa o cursor segue seu curso, Corso e Russo para expor a emoção, a trangressão, a translação desta verborragia fria; necessidade de criar mais arte em parte bit e palavra teclada, mas, lida sem emoção.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Antimétodo


Minto no mito
antimétodo da história
que histérica conta
um mais um dois
três quatro cinco mil
vezes não às mentiras
metradas na régua do destino
nordestino retirante pro sul
cheio de céu de nuvens de sal
onde o mal é líquido
pois quando inunda
molha a bunda
do anjo fofo
cheio de mofo
sobre o altar.

A Lei e o Erro


Errei por andar além do limite,
tropecei na linha entre o bem e o mal.
Levantei a cabeça e no fim do túnel - uma luz.
Era o trem que vinha na direção contrária.

Errei quando escolhi ficar vivo
na morte não há conhecimento
nem sensação, nem amor.

Errei quando toquei naquele fruto:
alta jaqueira intangível,
rasteiro morando tímido escondido,
laranja da discórdia do grego aturdido.

Mas para haver Erro é necessária Lei:
Previsão de crime e sua conseqüência,
uma visão futura desta delinqüência
onde sem limites somos escravos
do nosso própio desejo.

Colapso da Poesia


A poesia acabou
como um poço que seca
uma criança tropeça
olha pro céu e chora.

Rimas, mas onde foram?
Climas, aquecidos estouram.
Versos pro espaço - universo.

O sentimento é ambíguo,
e o preço do trigo
nem pão, nem vinho.
Musa, porque nos abandonou?

Colapsou a poesia!
Descansa na UTI.
Um médico enfia
um pouco de vida em ti.

Recolho minha pena
que tantas vezes te cutucou.
Vou catar meus pedaços,
vou amarrar os cadarços
e comprar flores pra você.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

A Dor


Uma dor funda no peito...
Será um enfarte, será? Será?
Uma lágrima brilha clara no olho escuro.
Um sorriso desfeito no canto da boca,
na língua um gosto amargo de tristeza e fel.

Chorei pelas ruas, ninguém me viu,
cambaleei pelas calçadas, caí bêbado no chão....
O mundo gira a minha volta....
Volta! Volta, que sinto sua falta.
Alegria, onde você está?

Fiquei só e ouvi passos se afastando em meio a névoa,
era Deus que partia sem se despedir.
Era a vida que se esvaía como perfume em flor murcha,
como sonho depois do despertar.

A barba cresce, a mente cansa
e nesta dança de ódios e entrigas
só eu apanho em meio a briga...
direto de esquerda, Knock Out!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Visões da revolta


Desperta 5h00 da manhã
café requentado, pão dormido
engolido com pressa.

Caminha, rua de terra, frio da madruga...
rosto seco, barba feita, uma ruga.
Sapato gasto, no bolso um trocado.
2,50 a passagem isso é um assalto.
São duas pra ir e pra voltar.

Uniforme, ferramenta, ordem.
Caixa, peças desordem.
Toca, toca sinal. Avisa, é hora de parar...
a marmita fria, o bife solado
a carne está pela hora da morte.

Volta depois de tudo, nem viu o sol
podia ir prum parque....
aqui só tem bar, igreja e terreiro
mas tem uma casa linda na outra margem
onde um pai brinca com seu filho livre
num condomínio fechado.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Poeta em construção


Quis escrever como Fernando,
Efes e erres não satisfazem erros.
Quis rimar como Camões,
Quadras, rimas, redondilhas
sempre, as palavras inutiliza
horríveis versos em bordão.
Quis ser romântico, Carlos ou Vinícius,
linhas tortas palavras certas prum engenheiro
da palavra: emoção.
Quis ser poeta, um homem por inteiro
cabeça, tronco, mente e membros
doados às palavras que enrolam novelos
que tecem tramas e revelam erros
deste poeta em construção.

Aqui


Aqui onde o sol esposa a terra,
onde o irmão levanta em guerra
e a espada da razão não vence.

Aqui nesta cidade suicida
milhões de kamikazes
em ônibus às 6H00 da manhã
seguem solenes seu destino.

Aqui onde o atabaque, o centro,
a macumba, rezas, velas, comidas
religiosidade singela, primitiva
agrada aos deuses, aplaca a ira.

Aqui onde dentro o ensurdecedor silêncio
combina um câmbio de estado
cá fora nesta fumaça
barulhenta gente e motor.

Neste lugar onde somente se vê o dinheiro
dólar, libra, yene ou euro.
-Tenho pra vender. Quem quer comprar?
-Tenho sonhos semi-novos, palavras de segunda mão,
rimas pobres de música, músicas sem reflexão.
-Tenho olhos vermelhos de cachaça e fuligem
e um retrato roto daquela virgem
que me deixou na solidão.

Corre o menino atrás da pipa que voa e vai,
linha solta ao vento, seu sabor, seu tempo
limpo, nublado, mutante seja qual for.
Quando a mulher passa na cadência celeste
nesta rua que mira a leste, nascente vem.
Cabeças se curvam, sorrisos, margaridas desabrocham,
murcham girando pelo sol que passou.
Então nuvens cobrem de branco a fronte azul,
relampagos cortam feições tempestuosas nas faces
que pingam o choro dolorido pelos idos dias de sol.
E as sementes caidas no chão assitem a tudo
junto as raízes mortas dos que já se foram
esperam um dia correr, mirar, desabrochar e embranquecer.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Mais um de amor.(Ahavah)


Amo, amar faz parte do ser humano.
Amo alguém para amar a mim mesmo.
Amo desde o leite materno, vida.
Amo, luz quente do girassol no céu.
Amo, irmãos feitos pela amizade.
Amo saber que pouco sei sobre tudo.
Amo uma mulher de cabelos brancos.
Amo este ar que sustenta o dirigível.

Ame o que se lhe é dado.
Ame mais alguém e a si.
Ame a Deus no céu e alguém na terra.
Ame as idéias mais que as coisas.
Ame falar sem interesses.
Ame como a nuvem em pureza.

O amor é um dom especial
nasce, cresce, vive além de nós.
Amor não é sentimento, é estado de espírito.
O Amor precisa cuidado, terra fértil e chuva,
carinho, conversa, compreensão,
mansidão, sorriso e entrega.

Venha...
Abra o coração e
Ame você também.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

São Paulo 454, nas duas direções.

454 para direita, 454 para a esquerda.
Este número é a cara de São Paulo, uma cidade de mão dupla onde os opostos convivem:
A cultura do MASP e as mãos gatunas dum cozinheiro.
A riqueza do Shopping Iguatemi e a popularidade do Aricanduva.
A música da sala São Paulo e o batidão ilegal da periferia.
As empresas de marketing e a ausência de outdoors.
O grito de liberdade no Iprianga e a escravidão de bolivianos no Bom Retiro.
São Paulo é isso aí, um lugar para todos e para ninguém, um lugar com vocação e convocação de riqueza e de pobreza, de civilização e de babárie, de paz e de guerra, de sol e de chuva, de ricos e pobres.
O metrô sobe a bolsa desce, a igreja enche o milagre acontece.
Temos a cozinha de todo mundo e a fome de todas as bocas, temos o 'Ibira' central park e a falta de lazer do Real parque. Temos parada o ano inteiro, seja gay, seja de motoboy. E como não poderia deixar de ser temos a atração mais importante de uma grande cidade: o TRÂNSITO.
Seja no ar, seja na terra está tudo sempre engarrafado:
A estação de trem, a fila do banco, a boca do caixa, o vestibular, as salas de show, as salas de aula, a praça do shopping a praia de Santos.
Apesar de tudo isso o paulistano não vive fora de São Paulo, seu habitat natural. E isso é tão verdade que quando ele vai pro interior fica intoxicado com o excesso de oxigênio

Parabéns São Paulo!

São Paulo


Um dia da terra batida
brota uma cidade.
Então o rio murmurava
no compasso da Bandeira.

Na eira a mandioca,
força da terra provinciana.
Nas tropas as mulas, cargas insanas.
Ouro e minerais, índios como animais.

Na terra vermelha o café negro
nas palmas brancas de um escravo.
Rico branco de alma machada
c'o sangue nobre dum Rei do Congo.

Fábrica chama no alto do minarete:
Entrada. Saída, só se for morto.
A gora o branco vindo da Itália
trabalha duro naquele fosso.

“Kasato” atraca na doca escura,
olho horizontal de face perdida
não comunica nada da cultura
branca e preta zen-budista.

Na oriente a rua irmana
judeus e árabes sobre um tabule.
As lojas abrem e na calçada
tapioca doce dum camelô.

Sobe um prédio,
sobe uma cerca,
separa o rico
do desvalido.

A cidade separa, já não une,
mata, já não cria...
O rio silêncio denuncia:
“Chegou mais um ônibus no Tietê.”

Devaneio de feriado



Olha o céu Azul-cinza
e as estrelas que não vês.
Sobe ao alto consciência,
pelo menos 2.000 pés.

A cidade é silêncio,
mas aqui dentro
faz tumulto a solidão.
Surdo acorde, coração.

Jogo tudo fora,
Cinco, sete, noves fora.
Sai e não volte mais!
Dá-me um copo d’embriaguez.

Eu mandei calçar a rua de pérolas
para meu amor passar.
Pérolas negras e brancas,
agora pedras vão rolar.

Quatro dias de procura,
Quatro esquinas, a macumba:
“Meu pai Oxalá é o rei venha me valer”
Tudo posso quando o clima desaquece.

Olhei o céu Azul-cinza
desta cidade. Contei
454 estrelas de neon
Nas antenas de TV.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Etilírico (Ethlyric)

Tocou meu cabelo naquele fio mais branco,
seguiu pelo pescoço descendo com toda intimidade,
o vento, sopra nas narinas abertas pra vida.
Vida que entra e sai sem cerimônia.

Mãos estendidas em adeus roçam meu corpo de partida.
Partem caminhos sob meus olhos e o Sol
brilha alto e forte como batida de limão na praia.

Vem, e segura em tua mão minha alma.
Leva pra longe, o máximo que puderes,
todos estes problemas, pois não posso fingir
que fujo sem rumo de mim.

Cantemos embriagados pelas esquinas
estas lembranças etílicas dos corações vagabundos,
meu e teu unidos no delírio deste chá da flor branca.

O mundo que você vê é nada
e nada é como tudo
que parece e que nos revela...
Caídos olhando as estrelas do céu insustentável.

Insustentável verso como este
de mentes vagantes nas linhas
desta escrita paixão.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Caminho




Por este caminho as pedras pisadas,
sob este sol, histórias contadas.
Guerras e pazes, irmãos, inimigos.

Veja aquele monte de onde vem a fumaça...
Abraão está lá no alto, um sacrifício foi feito.
Passamos pelo rio barrento, o Jordão ainda corre.
Lava minha alma de terra e lágrima,
leva minha culpa de violência e sangue.

Estou só no deserto, quarenta demônios me vem tentar.
Estou só e bem perto Adonai Echad[i].
A noite veio o escuro rodeia,
Terror noturno, brilho no céu.
Será uma estrela?

Cai a luz em mil pedaços feita,
pessoas choram de dor.
Não quer D’s esta luta fraticida
não quer D’s estes homens suicidas.

Como seria bom e agradável
Ver sentados, unidos, os irmãos.

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[i] D’s é Um ( o ch é pronunciado como RR de carro)