segunda-feira, 18 de junho de 2007

Frutas sobre a mesa

Natureza Morta (José Gomide)
Para meu pai.
A cesta cheia de frutas sobre a mesa
Maçãs, bananas, limões, mexericas.
Vermelho, amarelo, verde, laranja.

Apanho uma mexerica
Rasgo sua casca
Desnudo sua entranha
Laranja, polpa granulada.

Desfaço seus gomos
Duros, úmidos, grandes
Saboreio o suco laranja
Da mexerica que atiça
Meu senso gustativo.

No ar o cheiro de sua casca…
Inda voa, ainda paira
Misturando-se com seu sabor
Doce, azedo, passado.

No último gomo...
O gosto não é mais o mesmo
O cheiro esvanece a esmo
Redondo, não é mais o pomo.

Restam as sementes
Planta-las-ei?

Seu destino natural é...
Fecundar a terra, nascer um pé
De laranjas mexericas
Que nas línguas se aticem,
Que nas feiras se vendem,
Que nestas linhas se prendem
Nos versos , meus, sem cor.

Um comentário:

Mariana disse...

Hum...Como eu disse vc realmente está melhorando!Hehehehehehehe!!!Mas deixando as brincadeiras... Esse seu poema me fez lembrar um do Ferreira Gullar que eu achei a sua cara, aliás eu poderia jurar que foi vc quem escreveu caso estivesse sem assinatura!(Tá!Eu exagerei um pouquinho, mas contudo é um elogio, ok?)
Ah!O poema!O título é "Não há vagas".Vou deixar aqui para vc.

O preço do feijão
não cabe no poema.O preço
do arroz
Não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
"não há vagas"

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

o poema, senhores,
não fede
nem cheira